sábado, 2 de janeiro de 2016

"Argentina, nova direção", editorial da Folha de São Paulo

Passado pouco mais de um mês de sua eleição, o novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, já delineia com clareza a política econômica de seu governo.

Macri optou por verdadeira terapia de choque no início de seu mandato, com vistas a desmontar o intervencionismo que marcou o período do casal Kirchner no poder.

Ao mesmo tempo, o presidente busca promover um entendimento com sindicatos e empresários, no intuito de minorar os impactos sobre a população e, assim, manter apoio para reformas de fôlego.

Entre as principais medidas está a eliminação do imposto sobre a exportação de produtos agrícolas e industriais, com exceção da soja. A mudança deve incentivar a venda de estoques, reforçando as reservas internacionais.

Outra ação importante é a redução dos controles sobre a compra de dólares, como a necessidade de licença prévia das autoridades. Espera-se destravar o comércio e regularizar pagamentos em atraso, inclusive com empresas brasileiras.

A liberalização do mercado de câmbio provocou desvalorização imediata de 30% do peso, mas a derrocada da moeda foi menor do que se temia, sinal de incipiente confiança dos investidores.

O desafio principal, porém, está no campo do Orçamento, no que o desastre argentino difere pouco do que se passa no Brasil. O deficit público beira os 7% do PIB, em grande parte por causa de subsídios, sobretudo no setor de energia.

No curto prazo, tais medidas devem gerar mais inflação, que já caminha a 25% ao ano. Evitar uma espiral inflacionária será a prova de fogo da nova política econômica.

Para o Brasil, a chegada de Macri representa uma lufada de ar fresco. Superar o desgaste dos últimos anos e dinamizar o comércio será importante para a indústria. A Argentina, afinal, ainda é o segundo maior comprador de manufaturados brasileiros (17% do total).

Em visita ao Brasil em dezembro, o presidente argentino anunciou a intenção de destravar as amarras ideológicas que paralisam o Mercosul e expressou o desejo de concluir as negociações que já duram 15 anos com a União Europeia.

Eis uma janela para o Brasil adotar a mesma agenda de abertura. A arquitetura dos acordos comerciais mudou, com a perda de influência do multilateralismo da OMC (Organização Mundial do Comércio) e a proliferação de pactos regionais.
Quanto ao Mercosul, é preciso que o bloco proporcione efetiva ampliação do comércio da região com o restante do mundo, deixando de ser mero espaço protecionista.

Ao mesmo tempo, sem abrir mão do bloco, o Brasil deve ter suficiente autonomia para conduzir sua abertura no ritmo e na profundidade adequada. Nesse sentido, o status atual do Mercosul –uma união aduaneira, que implica adoção de tarifa comum nas transações com países de fora do grupo– deve ser revisto.