sexta-feira, 14 de julho de 2017

Raquel Dodge: a escolhida de todos

Mateus Coutinho - Epoca

A nova comandante da Operação Lava Jato conquista os senadores com pouca conversa e muita frieza



No final da manhã da quarta-feira, dia 12, o ex-procurador-geral da República Roberto Gurgel rangia os dentes, visivelmente irritado, sentado na penúltima fileira da sala da Comissão de Constituição e Justiça do Senado. Hoje aposentado, Gurgel estava ali no que achava que seria a confortável função de amigo, a acompanhar a sabatina de Raquel Dodge, indicada pelo presidente Michel Temer ao cargo de procuradora-geral da República. Gurgel já passara por teste parecido e, depois, participou do julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal e viu o início da Operação Lava Jato. Sabia, portanto, bastante sobre alguns dos parlamentares que ali estavam para questionar Raquel. Já eram transcorridas mais de três horas da sessão na qual os senadores questionavam Raquel, quando a fala de um deles o deixou bravo.

Raquel Dodge (Foto: Mateus Bonomi / AGIF)

Em sua vez de perguntar, o ex-presidente do Senado Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas – 12 inquéritos no Supremo –, fez um discurso. “Certa vez eu me candidatei à presidência do Senado, depois de um episódio que tumultuou durante 200 dias a vida do país. Eis que, para minha surpresa, na véspera da eleição, uma investigação que estava havia oito anos na Procuradoria-Geral da República, de um excesso pessoal que não tinha dinheiro público, recebeu uma denúncia”, disse. “Mais do que isso, com o PGR de então falando, comunicando o fato que tramitava em sigilo. Quando o Senado no dia seguinte teria uma eleição onde eu disputava circunstancialmente com um procurador da República. Eu acho que isso significa extrapolar. Na medida em que se usa uma instituição, tem de ter muito cuidado para não ser utilizada nessas condições.” O procurador era Gurgel – que, conhecedor da biografia de Renan pelas investigações na PGR, teve de se segurar. 
Renan passeou por esse episódio – a denúncia por desvio de dinheiro público e falsidade ideológica no pagamento da pensão da filha que teve fora do casamento – e por outros mais, como o pedido de prisão dele feito pelo atual procurador-geral, Rodrigo Janot. Seu discurso, porém, não teve nenhuma crítica ou mesmo questionamento a Raquel, tratada na fala de Renan como se já estivesse ocupando o cargo de procuradora-geral da República. Raquel Dodge ouvia tudo sem demonstrar reação. Reagia da mesma forma que fizera um dia antes, ao visitar o senador em seu gabinete. No périplo obrigatório a todos os sabatinados, ela esteve no 15º andar do Anexo 1 do Senado em busca de apoio para ser chancelada pela Casa. Ouviu Renan reclamar das ofensivas recentes de Janot e seus reiterados pedidos para que a PGR tivesse mais cautela nas investigações. A frieza de Raquel surpreendeu Renan. Sem manifestar simpatia ou contrariedade, ela afirmou que iria analisar e corrigir eventuais excessos praticados por seu antecessor e deixou claro que não iria ceder no combate à corrupção que tanto incomoda o mundo político. Em quase uma hora de conversa, ela disse que a ideia de criar uma lei de abuso de autoridade – a arma de Renan contra investigadores – era boa, mas que a proposta precisava de ajustes. 
O amigo Roberto Gurgel pode ter sofrido calado ao ouvir a provocação de Renan, mas Raquel Dodge foi aprovada por unanimidade (27 votos a 0) na Comissão de Constituição e Justiça, após oito horas de sabatina. Logo depois, sua indicação ao cargo foi aprovada por 74 votos a 1 no plenário do Senado. A partir de 17 de setembro ela sucederá a Rodrigo Janot, de quem é adversária, à frente do Ministério Público Federal – o que significa comandar a parte mais sensível da Operação Lava Jato. Assim como Renan, outros senadores se surpreenderam com a frieza de Raquel nas conversas. “Você não sabe o que ela está pensando”, diz um senador.
O perfil discreto foi uma surpresa que agradou aos senadores. Em meio à ofensiva aberta de Janot, que não poupa o mundo político em seus duros discursos, os parlamentares buscam alguém diferente. Raquel foi escolhida pelo presidente Michel Temer não apenas por ser adversária de seu inimigo Rodrigo Janot, mas também por seu perfil profissional.  Rigorosa e centralizadora, Raquel não é o tipo de procuradora que vai engavetar investigações. Contudo, seu excesso de rigor pode travar novos acordos de delação premiada. Ela já disse em debates que a imunidade dada aos delatores tem de ser proporcional ao alcance do que eles podem entregar. Nos bastidores, colegas afirmam que fez críticas ao acordo de delação fechado por Janot com o grupo J&F, na qual se destaca a do empresário Joesley Batista – justamente a que mais incomoda Temer e porque pode tirar-lhe o cargo. O caso mais conhecido de Raquel na área criminal foi a Operação Caixa de Pandora, em 2009, que levou à prisão o então governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (ex-DEM, atualmente sem partido). A Caixa de Pandora ficou famosa pelas diversas ações controladas, que registraram em vídeo episódios de corrupção explícita, como aquele em que Arruda recebe um maço de dinheiro de propina. Entretanto, a investigação perdeu ritmo quando chegou à mesa de Raquel e não resultou nas condenações esperadas.
Os senadores investigados pela Lava Jato  alimentam a esperança de que Raquel Dodge seja menos dura
Em seu périplo pelo Senado ao longo das últimas semanas, Raquel contou com a companhia dos procuradores regionais da República José Alfredo, Alexandre Espinosa e Raquel Branquinho, que se revezavam nas visitas aos gabinetes com a subprocuradora. Todos atuam na Procuradoria Regional da República da 1ª Região, em Brasília, e, entre eles, José Alfredo foi quem ficou em uma cadeira ao lado da mesa da comissão onde Raquel estava durante as oito horas de sabatina na quarta-feira. Seu nome, inclusive, está entre os cotados para atuar no Grupo de Trabalho da Lava Jato na nova gestão da PGR. Parte da turma que hoje atua com Janot já avisou que vai deixar os postos na investigação, pois não pretende trabalhar com Raquel. Além das visitas aos gabinetes políticos, Raquel se aprofundou nos temas que poderiam ser abordados na sabatina. No domingo, dia 9, ela almoçou com a família e depois foi para sua sala no prédio redondo espelhado da PGR, onde se debruçou sobre uma seleção de 50 perguntas que poderiam lhe ser feitas na sabatina. Os questionamentos foram elaborados por colegas e tomaram uma tarde de estudo e preparação.
Apesar de algumas provocações e críticas à PGR, a sabatina foi tranquila. Nem os senadores investigados pela Lava Jato fizeram perguntas delicadas para Raquel. O senador José Serra, do PSDB de São Paulo, alvo de dois inquéritos no Supremo, dedicou seu tempo a fazer uma pergunta sobre processos judiciais que levam os governos a pagar por medicamentos e tratamentos médicos. Agripino Maia, do DEM do Rio Grande do Norte, também investigado perante o Supremo, apenas disse que Raquel está “preparada para o exercício da função”, e não para “brigas pessoais”, em referência a Janot. As senadoras, por sua vez, comemoraram o fato de Raquel ser a primeira mulher indicada para chefiar a PGR. “A (senadora) Vanessa (Grazziotin, do PCdoB) diz que a senhora fala suave, baixo, é meiga. Essas é que são as mais bravas”, brincou a senadora Kátia Abreu, do PMDB. Espera-se que assim seja.

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