sábado, 12 de agosto de 2017

Paradoxo da China - Para sobreviver, PC chinês precisa unir crescimento e desenvolvimento





Wang Zhao - 21.dez.2015/AFP
Mulher anda de bicicleta em dia de alerta vermelho contra poluição em Pequim
RODRIGO ZEIDAN - Folha de São Paulo
A poluição é o preço do progresso, diziam muitos cientistas sociais brasileiros na década de 1980, ignorando os danos ao ambiente que chegaram a levar a cidade de Cubatão, no Estado de São Paulo, a ser chamada de Vale da Morte.
Na China, hoje, a vida é regrada pelos aplicativos que dão o nível de poluição no dia. Em cidades como Xangai ou Pequim, em dias de poluição muito forte, as escolas mandam as crianças ficar em casa.
Na NYU Shanghai, no e-mail de boas-vindas já avisam que o prédio da instituição conta com modernos filtros de ar e têm monitoramento constante do nível de partículas no ar. Muitos dos meus colegas usam máscaras nos dias de pior poluição, e a palestra de um cientista que explicava as consequências da poluição no organismo teve gente saindo pelo ladrão.
O pacto social implícito entre o Partido Comunista e a sociedade é bastante simples: enquanto o partidão continuar entregando progresso, não há razão para grandes revoltas. A última delas, na praça Tiananmen, em Pequim, em 1989, deixou centenas (ou milhares, ninguém sabe ao certo) de mortos, com o governo decretando estado de sítio.
Não coincidentemente, os anos de 1989 e 1990 foram os últimos de "recessão", com a economia crescendo somente 4% nesses anos, um medo sobre projeções futuras de crescimento. A economia decolou e cresceu constantemente, com nenhum ano abaixo dos 8% de crescimento, até 2012.
A "queda" do crescimento e o medo de uma crise, em 2015, ainda deixam a economia em posição muito melhor que a do final dos anos 1980, já que a projeção de crescimento é de mais de 6% ao ano, pelo menos até 2021.
Mas o contrato social está mudando. Afinal, de que adianta crescimento econômico se você pode ter problemas respiratórios ou mesmo morrer por causa da poluição?
Um exemplo é Pequim. A embaixada americana publica de hora em hora a qualidade do ar na cidade, com indicadores de partículas finas PM2,5, que criam as névoas de poluição e podem causar diversos problemas respiratórios. Os critérios normais são que até 50 partes por metro cúbico não são nocivos, com valores acima de 500 tão ruins que os medidores normais não conseguem mensurar adequadamente.
No caso de Pequim, a média foi de 84 no primeiro trimestre de 2017, com quase um terço dos dias apresentando índices acima de 100, nocivos a pessoas sensíveis, e 11 dos 90 dias tendo índices acima de 200, que a Organização Mundial da Saúde considera como muito insalubre, causando aumento generalizado de doenças respiratórias.
A China ainda é o país que mais polui no mundo (embora, por pessoa, o título ainda seja dos EUA). Mas mudanças ocorrem cada vez mais rápido, pois caso contrário a reação da sociedade à poluição pode colocar em risco a sustentabilidade do Partido Comunista Chinês.
A China, que até 2015 inaugurava uma nova termelétrica a carvão a cada semana, em 2016 apresentou queda de quase 5% no consumo de carvão, embora esse recurso extremamente poluente ainda seja 62% das fontes de energia do país.
Como tudo na China, a evolução não é linear. O governo federal não é todo-poderoso. Para cada iniciativa que busca a sustentabilidade ambiental, como a criação do primeiro mercado de títulos corporativos "verdes", que em 2016 permitiu a empresas captar US$ 36,9 bilhões, ou subsídios à energia solar e eólica, temos governos locais ignorando as regulações mais básicas, como impedir o despejo direto de rejeitos químicos em rios.
Diferentemente do Brasil, com suas leis ambientais de Primeiro Mundo e a maior bacia hidrográfica do mundo, na Amazônia, a China é um país com pouca água potável, já tendo destruído a maioria dos seus rios.
Mas numa coisa somos iguais. Muitas políticas ambientais fazem sentido social e político, mas diversas vezes esbarram em interesses econômicos muito curto-prazistas. Conciliar crescimento econômico com desenvolvimento socioambiental não é só uma bandeira vazia para o Partido Comunista mas uma condição necessária para sua sobrevivência.

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