quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Filme “Extraordinário” escancara o poder transformador de uma gentileza

Jairo Marques - Folha de São Paulo


Cena do filme "Extraordinário" ("Wonder"), de Stephen Chbosky – Divulgação



Não havia passado nem dez minutos de filme e eu já estava apertando os dedos contra as pernas e esticando os músculos da face para evitar um bafão e me chorar inteiro dentro do cinema.
Estava convicto de que não me renderia a uma armadilha sentimental hollywoodiana tão facilmente, afinal, conheço bem as durezas de levar a vida guardando uma marcante diferença em relação aos outros, tema central de “Extraordinário”, em cartaz nos cinemas.
Foi inevitável desabar, porém, quando Auggie _ nome do personagem do garotinho que protagoniza o filme e que tem uma deformidade marcante no rosto_ pede desculpas por ter “encarado e incomodado”, mesmo que na imaginação, o personagem Chewbacca, de Star Wars, que tem aparência um tanto extravagante.
E é uma sequência de situações em que a gentileza se faz presente ou se faz necessária que vai conduzindo a gente para um estado periclitante de querer rever atitudes, de chegar em casa o mais rápido possível para abraçar as crianças e dizer a elas: “Sejam sempre gentis”.
Educar para a tolerância, para a compreensão da diversidade, para agir em prol da união e contra preconceitos, sem ranços e sem ceder aos empolados manuais do politicamente correto, é tão humano e tão edificante como é também desafiador e inquietante.
Mas presenciar um filho combatendo uma injustiça, agindo contra uma discriminação e praticando gentileza é como ganhar uma nova chance de fazer do planeta, do país, da casa lugares mais harmoniosos e com menos sequelas em seu caráter.

Cena do filme “Extraordinário” (“Wonder”), de Stephen Chbosky. Elenco: Julia Roberts, Jacob Tremblay, Owen Wilson.

A grande sacada de “Extraordinário” não é o sofrimento e a angústia do pequeno que tem de encarar o mundo com sua deformidade indisfarçável, mas, sim, a de mostrar que cada um de nós, em algum momento, precisamos ser olhados além de nossas carapaças, nossos trajes sociais de bonzinhos, de tolerantes, de escroques, de feios, de bonitos ou de rabugentos.
A teia que tenta dar suporte a Auggie vive seus próprios dilemas e, com isso, vai ampliando as identidades com o expectador que fica cada vez mais consternado, comovido e envolvido.
É a mãe que se anula para tentar melhorar a realidade do filho e a encorajá-lo para enfrentar o lá fora, a irmã que cresce tendo de compreender que terá menos espaço de atenção, o colega de sala que vive o dilema entre ser amigo ou ser da turma.
Todo “serumano”, em algum momento, durante sua batalha de existir, vai precisar de uma mão, de uma oportunidade, de uma bandeira branca, de um aceno ou de um beijo. Ampliar a capacidade de captar que é “a vez do outro”, calibrar o desconfiômetro que aponta para a crueldade e desvirtudes resultam sempre em ações que podem levar o bem para alguém.
O filme passa longe de ser uma obra cinco estrelas, pois cai nas batidas esparrelas de querer compensar os desgastes e dores dos personagens com vitórias homéricas e lições de moral, assim como “pune” quem não se comporta bem, o que afasta demais a trama de uma maior similaridade com a vida real.
Entretanto, o caldo que se extrai de “Extraordinário” é como um néctar doce que cai tão bem para a alma nesses tempos natalinos. Deixe-se contaminar com o poder de uma gentileza.

PSDB fecha questão a favor da reforma da Previdência


Veja
PSDB decidiu fechar questão e votar a favor da Reforma da Previdência. Com a decisão tomada na reunião da Executiva Nacional nesta quarta-feira, os 46 deputados do partido serão pressionados a votar com a orientação. Neste primeiro momento, o partido decidiu não punir eventuais deserções.
A decisão da Executiva, colegiado formado pelas principais lideranças do partido, terá um efeito simbólico forte. Se não há tradição no tucanato de punir divergentes, o fechamento de questão aumenta a pressão para que a bancada do partido, que estava relutante, aprove as mudanças na aposentadoria.
O apoio do PSDB é considerado essencial para que o governo do presidente Michel Temer (PMDB) consiga aprovar a reforma. Por se tratar de uma proposta de emenda à Constituição (PEC), são necessários 308 votos para que seja aprovada na Câmara. Depois, ainda precisa passar pelo Senado, também com o apoio de um terço dos membros.
No último sábado, durante a Convenção Nacional do PSDB, em Brasília, os principais oradores, entre eles o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, virtual candidato da legenda ao Palácio do Planalto, defenderam com veemência a aprovação do projeto. Em declaração exclusiva a VEJA, o governador de Goiás, Marconi Perillo, eleito vice-presidente nacional do partido, afirmou que trabalharia para que o partido fechasse questão.

Se Lula for condenado, poderá ser candidato? Tire essa e outras dúvidas


Lula durante visita ao tríplex em fevereiro de 2014 - Reprodução


O Globo



Ao marcar o julgamento do recurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o próximo dia 24, antes do registro de sua candidatura presidencial, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) definiu a data que dará o tom das eleições de 2018. Uma eventual condenação na segunda instância, poderá afetar diretamente o pleito. Tire suas dúvidas com perguntas e respostas feitas pelo GLOBO sobre o caso. 


Se condenado, Lula ainda poderá concorrer à Presidência da República?
Depende. Pela Lei da Ficha-Limpa, uma condenação de um órgão colegiado, como o TRF-4, torna o candidato inelegível. Mas ainda há vários recursos que podem permitir a candidatura de Lula. Em primeiro lugar, ele pode recorrer ao próprio TRF-4, e a jurisprudência diz a sentença só pode ser considerada final quando esses recursos, chamados de embargos infringentes e declaratórios, forem analisados.

Assim, o petista ainda deve ganhar tempo. E há mais recursos: mesmo que tudo seja julgado no TRF-4, e a condenação mantida, o ex-presidente ainda pode recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), para tentar obter uma liminar e manter a candidatura. Nesse caso, vai depender muito de que juiz for analisar o caso, porque não há uma posição definitiva. Ou seja, mesmo que Lula seja condenado, ainda não dá para saber se ele será ou não candidato.

Quando deve sair a decisão de segunda instância?
O julgamento agora está previsto para o próximo dia 24 de janeiro. O prazo final para registro de candidaturas é 15 de agosto.

Lula pode tentar registrar a candidatura, mesmo inelegível, enquanto couber recurso?
Mesmo que Lula esteja inelegível, isso não o impede de solicitar o registro de candidatura. E a lei eleitoral diz que com a solicitação do pedido de candidatura, o candidato está autorizado a realizar atos de campanha até a decisão definitiva do registro de candidatura.

Podemos, então, ter uma campanha de Lula com ele condenado?
Sim. Ele condenado e discutindo a sua elegibilidade. Mas a lei eleitoral tem decidido a partir de 2013 que os partidos políticos têm até 20 dias antes das eleições para substituir as suas candidaturas. Caso o STF entenda que ele é inelegível, ao que tudo indica, o PT não poderia mais substituí-lo, e aí seria excluído da eleição.

O que acontece se o TRF-4 absolver Lula?
Se Lula for absolvido no TRF-4, a acusação, que é feita pela Procuradoria Regional da República da 4ª Região, pode entrar com os embargos dentro do próprio colegiado. Caso os desembargadores mantenham a absolvição, os procuradores podem entrar com recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ), pedindo a revisão da decisão. Só depois disso, a acusação pode procurar o Supremo Tribunal Federal (STF). Com a absolvição em segunda instância, ainda que caibam recursos, o ex-presidente fica apto a participar da eleição.

O que aconteceria se uma eventual condenação saísse depois das eleições, com Lula sendo eleito?
Haveria um debate jurídico se ele poderia ou não assumir a Presidência.

Quais são os processos contra Lula?
O ex-presidente Lula está envolvido em nove processos criminais. O petista foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro em um deles, o caso do tríplex do Guarujá, e é réu em outras cinco ações penais em Curitiba e em Brasília. Além disso, o ex-presidente foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) em mais três investigações.
Em 12 de julho, o juiz Sergio Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão por ter recebido um tríplex reformado pela OAS como propina. Por enquanto, é a única condenação contra o petista.

Em que ações ele é réu?
Na Lava-Jato de Curitiba, o petista é réu em duas ações, que ainda não foram julgadas. Em um dos processos, a Odebrecht é apontada como responsável por pagar um terreno onde seria construído o instituto Lula e o aluguel de um apartamento vizinho ao de Lula em São Bernardo. No outro processo de Curitiba, o ex-presidente é acusado de receber da Odebrecht e da OAS reformas no sítio de Atibaia.
Em Brasília, correm outras três ações. Na primeira delas, por obstrução de Justiça por supostamente tentar comprar o silêncio de Néstor Cerveró, o MPF já pediu sua absolvição por falta de provas, alegando que o delator, Delcídio do Amaral, mentiu.
Em um processo ligado à Operação Janus, Lula é acusado de usar sua influência junto ao BNDES para favorecer a Odebrecht em contratos e obras do governo federal. O último caso a que ele já responde como réu em Brasília é da Operação Zelotes e envolve investigação sobre a compra de caças.

De que Lula é acusado no caso do tríplex?
Os procuradores dizem que o apartamento está em nome da OAS mas seria do ex-presidente, como contrapartida por contratos que a OAS fechou com a Petrobras. O MPF pediu a condenação e prisão de Lula por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Os procuradores também pedem que sejam devolvidos aos cofres públicos R$ 87,6 milhões, referentes a contratos da OAS com a Petrobras. No documento de alegações finais entregue ao juiz Sergio Moro, os procuradores ressaltaram que o MPF apresentou um "enorme conjunto de provas" documentais, testemunhais, periciais, que incluem dados dados extraídos de afastamento de sigilo fiscal dos réus, fotos e mensagens de celular e emails trocados entre os réus.

Para eles, a dificuldade de produzir provas de que o apartamento pertence à família de Lula é fruto da profissionalização dos crimes de lavagem de dinheiro.

O empresário Léo Pinheiro, dono da OAS, disse que o apartamento era de Lula e que a situação do imóvel não foi regularizada. Segundo ele, o tesoureiro do PT João Vaccari Neto orientou que os valores gastos no triplex fossem abatidos da conta corrente de propina que a empresa mantinha com o PT.


Apartamento tríplex no Edifício Solarius, no Guarujá, que seria de Lula, segundo Léo Pinheiro - Marcos Alves


O que a defesa de Lula argumenta?
A defesa de Lula diz que o apartamento é da OAS e que, além disso, foi dado em garantia a uma operação financeira feita pela empreiteira. Em 2010, a OAS Empreendimentos tomou R$ 300 milhões de um fundo da Caixa, o FI FGTS, e deu vários imoveis como garantia. Como ainda não quitou a dívida, em tese o triplex segue compromissado com o banco. Lula diz que, se fosse dele, a OAS não teria feito a operação. Os advogados dizem que Lula só visitou o imóvel uma vez, quando Leo Pinheiro o ofereceu, já que a família de Lula havia adquirido, em 2005, uma cota-parte nesse empreendimento.

Lula pode ser preso?
Vai depender se o Supremo Tribunal Federal manter aquele entendimento do ano passado de que as condenações em segundo grau são suficientes para dar início ao cumprimento da pena. Alguns ministros têm divergido na manutenção desse entendimento. Pela compreensão atual, a última manifestação, ele daria início ao cumprimento da pena já com a decisão de segundo grau.


'Infraestrutura foi atingida por um tsunami com a crise econômica'

Caio Rinaldi, Thaís Barcellos e Letícia, Broadcast

setor de infraestrutura no Brasil foi atingido por um "tsunami" com a crise econômica que atingiu o País nos últimos anos e com os esquemas descobertos pela Operação Lava Jato, mas os eventos não são necessariamente negativos. A afirmação foi feita pelo diretor presidente do Instituto Ethos, Caio Magri, na abertura do "Fórum Estadão - Infraestrutura: Investimentos e geração de empregos", que ocorre nesta quarta-feira, 13, em São Paulo.
Na sua avaliação, o ajuste pode se provar "positivo do ponto de vista de gerar oportunidades e construir novos processos", além de promover maior transparência entre as relações público-privadas. "Neste momento, temos grandes desafios. É necessário rever, revisitar, proporcionar uma profunda autocrítica de como podemos criar uma nova relação público-privada, baseada na integridade e transparência", declarou Magri.
Infraestrutura
Impulso de investimentos em infraestrutura ajudaria na retomada da economia, apontam especialistas Foto: UESLEI MARCELINO | | REUTERS
A repercussão gerada pela crise econômica e investigações anticorrupção, como a Operação Lava Jato, impôs melhorias ao setor. "Só é possível transformarmos as antigas práticas, antigos modelos de negócios, se houver um avanço setorial. A boa notícia, que precisa ser comemorada, é de que as principais empresas do setor estão se transformando", apontou.
Segundo ele, os mecanismos internos de integridade das empresas evoluíram e adquiriram independência nas companhias. "As mudanças nas empresas são importantes, mas o mercado precisa mudar", reforçou.
O presidente do Ethos ainda completou que é preciso modificar também a integridade que rege as instituições brasileiras. De acordo com Magri, a criação de um novo modelo de relação público-privada baseada na integridade e transparência é um desafio para 2018 e fundamental nesse momento de retomada econômica. Magri também citou a questão política e eleitoral. "É preciso pensar em melhor escolha dos eleitos. Uma reforma política profunda ajudaria."
Além disso, Magri afirmou que o Ethos propõe a criação de um Plano Nacional de Integridade com três tipos de medidas: reformas institucionais, ações para agravar o custo da corrupção e de prevenção.
Ele citou, por exemplo, que são necessárias medidas para que o Estado responda por suas responsabilidades, de alteração do processo penal e revisão das normas de licitação e contas públicas, de regulamentação do lobby e de ampliação de estímulos à atividade empresarial.
Demissões.  Em participação no Fórum do Estadão sobre infraestrutura, o presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon), Evaristo Pinheiro, destacou que o setor é um dos poucos que continuam demitindo, enquanto outros segmentos de atividade da economia já vêm mostrando melhora do mercado de trabalho há alguns meses.
De acordo com Pinheiro, o fechamento das vagas em construção pesada e leve reflete a queda do nível de investimento tanto público quanto privado, além do consumo do backlog de obras contratadas.
“Se o setor de infraestrutura não voltar, não sair do fundo do poço, não haverá sustentabilidade do crescimento do PIB”, alertou o presidente do Sinicon, salientando a alta relevância do setor para a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) brasileira.

Temer quer emplacar reforma tributária em 2018

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

Com o risco de frustração da votação da reforma da Previdência, o Planalto quer emplacar uma proposta de reforma tributária em 2018. O presidente Michel Temer pediu à sua equipe que o texto com a simplificação das regras tributárias fique pronto no início do ano que vem.
“Se a Previdência não avançar, a reforma tributária será ainda mais relevante”, disse o assessor especial da Presidência da República para a reforma tributária, Gastão Alves de Toledo. “Ambas são importantes. Se a Previdência passar, o presidente terá maior ânimo para fazer a tributária.”
O texto original, que não chegou nem mesmo a ser enviado ao Congresso, foi fortemente combatido pelas empresas de serviços. Para barrar essa resistência, o governo já acenou que pretende flexibilizar a proposta de mudança no PIS/Cofins – tributos que têm hoje regras complexas e de difícil pagamento para as empresas. Pela nova proposta em discussão, o setor de serviços ficará de fora do novo modelo de cobrança do PIS/Cofins.
As empresas de serviço poderão continuar pagando pelo sistema cumulativo de cobrança, que tem hoje alíquota de 3,65%. As demais empresas, sobretudo da indústria, que pagam pelo sistema não cumulativo, terão a cobrança aperfeiçoada e poderão abater do imposto devido um leque maior de créditos. A nova alíquota ainda está em definição.
As empresas do setor de serviços fizeram ao longo do ano uma mobilização no Congresso e nos gabinetes do governo para impedir que a proposta avançasse, temendo aumento da carga tributária.
Segundo Gastão Toledo, independentemente da reforma da Previdência, Temer quer ter um texto pronto de reforma no início de 2018, apesar de ser um ano eleitoral que gera maior dificuldade de apoio parlamentar.
A proposta elaborada pela Receita Federal estava em discussão no Palácio, mas Temer pediu ajustes. Nos últimos dias, os ministros da Fazenda, Henrique Meirelles, e do Planejamento, Dyogo Oliveira, passaram a dar ênfase na reforma tributária em pronunciamentos públicos.
Para o consultor institucional das entidades que representam as empresas de serviços, Emerson Casali, o governo acerta ao atacar o “verdadeiro” problema do PIS/Cofins, que é o sistema atual de créditos que prejudica a indústria. “Acerta também ao não criar problemas desnecessários para as empresas do setor de serviços com um aumento descabido da carga tributária sobre quem mais emprega”, disse.
Dúvidas. Para ele, não ficou claro, no entanto, se todos os setores de serviços não serão afetados. Segundo Casali, não aumentar impostos sobre os serviços foi uma promessa também feita pela área econômica ao Presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), no mês de agosto.
O outro ponto que ainda preocupa o setor é o realinhamento de alíquotas em função da decisão do Supremo Tribunal Federal que retirou o ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins. A Receita Federal havia declarado a necessidade de aumentar as alíquotas para evitar perdas, o que gerou reações.
A maioria dos ministros da Corte decidiu que o ICMS, um imposto estadual, não poderia ser incluído na base de cálculo do PIS e da Cofins, que são tributos federais. Durante o julgamento, a Advocacia-Geral da União (AGU) afirmou que o governo poderia perder até R$ 27 bilhões por ano.

O melhor para o país

Com Blog do Noblat - O Globo




É fato que sempre haverá a possibilidade de um pedido de vista, o que atrasaria por tempo indeterminado qualquer desfecho. Mas o Tribunal Regional Federal da 4ª Região fez bem em marcar para o próximo dia 24 de janeiro o julgamento do recurso impetrado pelo ex-presidente Lula contra a decisão do juiz Sérgio Moro de condená-lo a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva na ação que envolve o tríplex do Guarujá, em São Paulo.

O pior dos mundos teria sido deixar o julgamento do recurso para meados de 2018, a poucos meses do início da campanha que elegerá o sucessor do presidente Michel Temer. Uma imprudência dessas poderia por em risco o próprio processo eleitoral. Como ele se daria sem que ninguém soubesse da sorte do atual líder das pesquisas de intenção de voto? Não só Lula, mas também seu partido seriam os maiores prejudicados. Sem falar dos eleitores.

Pelo que disseram, ontem, seus principais dirigentes, o PT não pensa assim. O melhor dos mundos para ele seria que o julgamento ficasse para a última hora. Se absolvido, Lula sairia forte como nunca. Se condenado, entraria com novos recursos na Justiça e poderia seguir  candidato e até se eleger. Se condenado e preso, se transformaria em mártir e, de dentro da prisão, acabaria funcionando como o maior cabo eleitoral da sucessão de Temer.

Jamais o PT aceitará qualquer outro resultado que não seja a absolvição de Lula. Como não aceitou o resultado do julgamento que condenou por corrupção seus mansaleiros. Lula, tampouco. Ao sentir-se em perigo depois que o escândalo do mensalão veio a público, Lula fez um pronunciamento na televisão dizendo que fora traído e pedindo desculpas aos brasileiros. Não disse por quem fora traído. Entregou a cabeça do seu ministro José Dirceu, e foi só.

Desde então, passou a repetir que o mensalão foi uma mentira criada para atingi-lo e ao PT. Também o petrolão, outra mentira. Na semana passada, culpou a Lava Jato pela falência do Rio de Janeiro, um Estado assaltado por uma gangue. Lamentou a prisão de ex-governadores do Rio. E disse não acreditar no que foi divulgado pela mídia a respeito do que eles fizeram. Lula e o PT só acreditam no que é dito contra seus adversários.

Mesmo a esses, se lhes pareça conveniente, estendem a mão. Pregam a reconciliação do país, desde sob seus termosos termos. Procedem com a costumeira arrogância que os caracteriza. Não enxergam ou não querem enxergar que seu tempo pode ter passado.



Principais partidos são presididos por investigados, denunciados e um preso

Com Blog do Josias - UOL


É como se no sétimo dia, quando Deus descansou, tivessem surgido sobre a terra os partidos políticos brasileiros. Em consequência, uma característica fundamental da dificuldade do eleitor é ter que ouvir os presidentes dos partidos durante vários anos para chegar à conclusão de que eles não têm nada a ensinar sobre ética, exceto que se trata de uma virtude facilmente contornável.

No momento, os principais partidos do país são comandados por investigados, denunciados e até um preso. Em maior ou menos extensão, enfrentam enroscos criminais, entre outros, os presidentes do PMDB, PSDB, PT, DEM, PP, PR, PRB, PSD e SD. Todos negam participação em desvios.

Nesta terça-feira, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal converteu em réu o senador Agripino Maia (RN), presidente DEM. Ele responderá pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. É acusado de receber propina da OAS. Coisa de R$ 654,2 mil entre 2012 e 2014. Declara-se inocente.

Presidente do PMDB, o senador Romero Jucá (RR) responde a 14 inquéritos no Supremo. Já foi denunciado num deles, que apura fraudes no Carf, o órgão que julga recursos contra autuações da Receita Federal. Costuma dizer que ser processado não é um problema. O que não se admite é a condenação.

O PSDB mudou de patamar. Deixou o comando da legenda o senador Aécio Neves (MG), que coleciona nove inquéritos criminais na Suprema Corte. Entrou no lugar dele o governador de São Paulo e presidenciável Geraldo Alckmin, que aguarda na fila pelo julgamento de um pedido de abertura de inquérito na Lava Jato em tramitação no Superior Tribunal de Justiça.

Delatores da Odebrecht disseram em depoimentos que Alckmin utilizou um cunhado, Adhemar César Ribeiro, para apanhar R$ 10,7 milhões em verbas oriundas das arcas do departamento de propinas da Odebrechet.

A senadora Gleisi Hoffman (RS), presidente que Lula consentiu para o PT, guerreia no Supremo contra uma ação penal na qual a Procuradoria a acusa de receber R$ 1 milhão em verbas desviadas da Petrobras para sua campanha ao Senado, em 2010.

Em petição submetida ao julgamento da Prmeira Turma do Supremo, a Procuradoria pede, além da condenação criminal de Gleisi e seus cúmplices, o pagamento de uma indenização de $ 4 milhões ao Estado, a título de indenização por danos morais e materiais.

O senador Ciro Nogueira (PI) preside o partido com o maior número de encrencados na Java Jato, o PP. Ele próprio responde a dois processos. Num, foi acusado por delatores da Odebrecht de receber R$ 1,3 milhão por baixo da mesa, para financiar suas campanhas em 2010 e 2014. Noutro, já convertido pela Procuradoria em denúncia, o senador responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no montante de R$ 1,5 milhão. Verba que a empreiteira UTC diz ser produto de roubo.

Ex-ministro dos Transportes de Dilma Rousseff, Antônio Carlos Rodrigues preside o PR desde a cadeia. Ele foi detido preventivamente. Acusam-no de corrupção passiva, extorsão, participação em organização criminosa e falsidade ideológica no mesmo processo que levou para trás das grades os ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha, sua mulher.

Ministro da Indústria e Comércio de Michel Temer, o pastor licenciado Marcos Pereira, da Igreja Universal, preside o PRB. Responde a dois inquéritos. No mais antigo, emergiu da delação da Odebrecht como beneficiário de R$ 7 milhões no caixa dois. No mais recente, foi acusado por Joesley Batista, o delator da JBS, de morder propinas de R$ 6 milhões.

Outro ministro de Temer, Gilberto Kassab (Ciência e Tecnologia), presidente licenciado do PSD, também responde a um par de inquéritos. No primeiro, é acusado de financiar sua campanha ao Senado, em 2014, com verbas de má origem. No segundo, é apresentado como beneficiário de propinas extraídas de obras viárias feitas em São Paulo no tempo em que foi prefeito da cidade.

O deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força Sindical, preside o SD, sigla de Solidariedade. Entre outros processos, ele é protagonista de uma denúncia na qual a Procuradoria o acusa de ter se beneficiado de esquema que desviou verbas do BNDES. Responde por crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa.

Deus, como se sabe, existe. Mas quem repara no cenário de terra arrasada que domina o sistema político brasileiro fica tentado a acreditar que Ele não merece existir. Fica evidente que o Todo-Poderoso criou a política sem a menor atenção e, ao retornar do descanso, percebendo o tamanho da encrenca, terceirizou a administração dos partidos políticos ao diabo.