terça-feira, 27 de junho de 2017

Eletrobras diz que estrangeiros querem parceria em Angra 3



Ramona Ordoñez - O Globo

Quatro grupos estrangeiros já demonstraram interesse em participar do projeto de construção da usina nuclear de Angra 3, afirmou ontem o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Júnior. As obras estão paradas desde 2015 em razão do envolvimento no escândalo de corrupção da Lava-Jato. Segundo o executivo, empresas de Rússia, China, Coreia do Sul e França já manifestaram disposição para participar do projeto.
— Só eu já recebi quatro interessados em ser parceiro da Eletronuclear — disse.
O executivo espera que o governo federal e o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) definam até setembro o futuro da usina, que tem 63% de obras prontas. A expectativa é que as obras sejam reiniciadas somente em 2019. A busca de parceiros para a conclusão das obras é uma das hipóteses em estudo. Mesmo neste cenário, porém, a operação da usina, que é monopólio da União, continuaria a cargo da Eletronuclear. Já foram gastos R$ 10 bilhões no projeto, dos quais R$ 8 bilhões são referentes a empréstimos.
— É mais barato viabilizar a conclusão da obra do que quitar os financiamentos — disse o executivo.
‘TEMOS UMA AGENDA A ENFRENTAR’
As obras de Angra 3 já tinham ficado paradas durante 23 anos, quando foram retomadas em 2008. O envolvimento do projeto em denúncias de corrupção levou à prisão do então presidente da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro.
Em entrevista ontem, Ferreira Júnior comentou a polêmica recente na empresa depois que foi divulgado um áudio no qual conversa com sindicalistas e afirma que 40% dos funcionários eram inúteis e vagabundos. Ele reiterou que pediu desculpas após o mal-estar, que a conversa se referia a cargos comissionados, mas ressaltou que as metas de redução de redução de gastos e pessoal estão mantidas. Ferreira Júnior assumiu o cargo com a tarefa de equilibrar as contas da Eletrobras.
— De fato, exagerei. As pessoas não são vagabundas nem safadas. Eu me arrependo disso e me desculpei no primeiro dia, foi no calor da discussão. Óbvio que a generalidade que fiz é equivocada e errada, e por isso me desculpo. Mas temos uma agenda a enfrentar e quero contar com cada um dos empregados e dos gestores para tocar essa agenda — destacou Ferreira Júnior.
Segundo o executivo, espera-se conseguir reduzir os gastos com pessoal de todo o grupo Eletrobras de R$ 6 bilhões para R$ 3,5 bilhões. O corte de custos deve incluir R$ 900 milhões com aposentadoria de empregados, R$ 600 milhões com redução de gastos administrativos por meio da adoção do plano de incentivo à demissão, R$ 700 milhões com a redução de pessoal após a privatização de seis distribuidoras das regiões Norte e Nordeste e R$ 300 milhões com outras economias.
— A agenda de produtividade e eficiência da companhia é a agenda a ser colocada para todos os gestores e empregados da Eletrobras. Não tem outra agenda mais importante do que essa, além da questão da redução da dívida — resumiu.
Os empregados do grupo Eletrobras pretendem fazer uma paralisação de 48 horas amanhã e no dia seguinte contra o não pagamento de Participação nos Lucros em 2016 e o descumprimento de cláusulas do acordo coletivo em vigor até 2018, que prevê negociação quando ocorre mudança de função do trabalhador. Emanuel Mendes, diretor do Sintergia/RJ, afirmou que a redução de pessoal precisa ser discutida.
— Ele (Wilson Ferreira) está fazendo a reestruturação unilateralmente, não está discutindo com a categoria — afirmou.
Petrobras retoma conversa com a sete
Em evento realizado ontem pelo grupo Lide Rio, o presidente da Petrobras, Pedro Parente, afirmou que a companhia já teria condições de obter o grau de investimento pelas agências de risco, mas que isso não ocorre porque o país também perdeu seu selo de bom pagador. Ele destacou as melhorias nos últimos meses e confirmou que foram retomadas as negociações com a Sete Brasil, que está em recuperação judicial.

União Europeia multa Google em valor recorde de US$2,7 bi por infração antitruste



Foo Yun Chee - Reuters
BRUXELAS - O órgão regulador antitruste da União Europeia aplicou uma multa ao Google, controlado pela Alphabet, no valor recorde de 2,42 bilhões de euros (2,7 bilhões de dólares), nesta terça-feira, indicando que adotará uma linha dura em relação à companhia em dois outros casos em andamento.
A Comissão Europeia disse que a ferramenta de pesquisa na internet mais popular do mundo tem 90 dias para deixar de favorecer seu próprio serviço de compras ou enfrentar uma pena adicional de até 5 por cento do faturamento médio diário da Alphabet no mundo.
A Comissão considerou que o Google ofereceu sistematicamente uma posição proeminente nas pesquisas para seu próprio serviço de comparação de compras e que rebaixou o serviço de rivais nos resultados.
"O que o Google fez é ilegal sob leis antitruste da União Europeia. Ele negou a outras companhias a chance de competir nos méritos e de inovar. E mais importante, ele negou aos consumidores europeus uma escolha genuína de serviços e os benefícios completos da inovação", disse a comissária europeia da concorrência, Margrethe Vestager, em comunicado.
Essa é a maior multa dada a uma única companhia em um caso antitruste da União Europeia, excedendo a penalidade de 1,06 bilhão de euros cobrada da produtora de chips norte-americana Intel em 2009.
Esse também é o maior revés regulatório para o Google, que chegou a um acordo com fiscais dos Estados Unidos em 2013 com uma exigência para parar de "descartar" análises e outros dados de sites rivais em benefício de seus próprios produtos.
O órgão fiscalizador de concorrência da União Europeia também acusou o Google de usar seu sistema operacional Android para derrubar rivais, um caso que tem potencial de ser o mais prejudicial para a companhia, com o sistema sendo usado na maioria dos smartphones.
A companhia também foi acusada de bloquear rivais em publicidades de pesquisas online, com a Comissão advertindo sobre multas dissuasivas se o Google for considerado culpado de quebrar regras da União Europeia.
(Reportagem de Foo Yun Chee)

"Nova Revolução Francesa: modernização do Estado", por Rubens Barbosa

O Estado de São Paulo


Quando foi perguntado ao primeiro-ministro chinês e companheiro de Mao qual o significado da Revolução Francesa de 1789, Chu En- lai respondeu que era ainda muito cedo para avaliar. Como serão avaliados os resultados da eleição presidencial de maio passado, que marginalizou os partidos políticos tradicionais de direita e de esquerda e elegeu um político de 39 anos, Emmanuel Macron, à frente não de um partido, mas de um movimento, o República em Marcha, criado em 2016? Como será avaliado o resultado do segundo turno das eleições parlamentares de 18 de junho último?
Os resultados das eleições para presidente e para a Assembleia Nacional apontam para uma verdadeira revolução pelo voto, que, se bem-sucedida, poderá relançar a França como um país moderno e competitivo e terá profundos efeitos sobre a vida política e econômica do país. Os partidos políticos tradicionais, como o Comunista, o Socialista, a Frente Nacional (extrema direita) e o Republicano (conservador) foram marginalizados; o debate polarizado entre esquerda-direita ficou superado e emergiu um centro fortalecido. A sociedade civil ocupou amplo espaço, os debates passaram a se concentrar na questão da identidade do país (superando a questão do nacionalismo versusliberalismo) e ficou afastado o receio da saída da União Europeia, presente desde a decisão do Reino Unido. Sobretudo, foi aberta a possibilidade de discussão e aprovação de reformas modernizantes que devem levar a França a recuperar o tempo perdido e a participar com voz fortalecida das grandes questões do século 21.
Na eleição parlamentar houve uma renovação de 75% da Assembleia Nacional e o movimento República em Marcha conseguiu obter a maioria absoluta (361 sobre 577, cerca de 65% dos congressistas). Macron saiu ainda mais forte para tentar aprovar de imediato as reformas prometidas na campanha eleitoral, sem ter de negociar com os partidos tradicionais, o que era impensável até sua eleição.
Não se pode dizer que a França nas últimas décadas tenha sido um país que transmitia a ideia de modernização e de progresso. Ao contrário, cada vez mais conservador, os governos aumentaram os privilégios e vantagens dentro de um Estado de bem-estar social, desenvolveram políticas protecionistas, sobretudo na agricultura, e o país perdeu competitividade, ao mesmo tempo que o mundo se transformava e a Alemanha tomava a liderança política e econômica na Europa.
Qual a nova mensagem que o jovem presidente Macron defendeu nas eleições? Renovação e modernização do Estado, com mudança das regras que balizam a atuação dos diferentes grupos sociais; modificação dos métodos da política; desafio das resistências tradicionais e conservadoras do status quo e, sobretudo, falar a verdade para a sociedade, na defesa das reformas que pretende aprovar nos primeiros cem dias de seu governo.
No tocante à reforma política, o objetivo das ações é a restauração da confiança na vida democrática pela moralização da vida pública, com regras claras e transparentes contra a corrupção.
Na reforma do mercado de trabalho, talvez a mais difícil de implementar, o governo vai tentar flexibilizar as leis trabalhistas para facilitar contratações e demissões (com a eliminação das multas), permitir a negociação direta entre as empresas e os trabalhadores, sem a intervenção dos sindicatos, acelerar as decisões nos processos trabalhistas e reformar o seguro-desemprego.
Na educação, entre outras áreas, são prioridades maior autonomia para os estabelecimento de ensino, maior atenção aos primeiros anos da escolaridade e simplificação da obtenção do diploma universitário (BAC).
A reforma da previdência buscará unificar os diversos tipos de aposentadoria pública e privada, reduzindo os privilégios.
A redução do papel do Estado na economia abrirá espaço para privatizações, como no setor de aeroportos.
Projeto de lei antiterrorismo, reforçando o poder policial e limitando o direito de culto, já foi submetido à Assembleia Nacional.
Na política externa, pelo apoio à União Europeia e pela relação mais dura com a Rússia, e à luz das incertezas causadas pela errática política externa de Donald Trump, os resultados projetam o novo presidente com um dos líderes políticos com mais força.
Apesar do respaldo recebido nas urnas, a aprovação dessas medidas não deverá ser fácil. A reforma do trabalho, em especial, deve sofrer forte oposição dos sindicatos e dos funcionários públicos, que procurarão manter as regras atuais, que tornam a empresa francesa pouco competitiva. A contestação virá das ruas, não do Parlamento.
Dentro desse movimento de reformas, é importante assinalar a emergência da chamada sociedade civil. Para se ter uma ideia do impacto dessa nova visão de governo, Macron, dos 22 cargos de nível ministerial, nomeou 11 fora dos quadros políticos tradicionais, sem experiência anterior de participação em órgãos do Estado. A grande maioria dos parlamentares eleitos pelo República em Marcha é de jovens e o número de mulheres é recorde. Todos sem nenhuma atividade política anterior.
Não posso deixar de assinalar a semelhança da agenda de reformas na França com as prioridades para a modernização do nosso país. A grande diferença é a capacidade de liderança de um grupo que teve a visão de que os partidos tradicionais estavam superados e de que é a verdade que os eleitores querem ouvir. Os candidatos não apresentaram grandes programas de governo, como se vê nas campanhas presidenciais no Brasil, mas uma agenda clara, transparente e bem definida de modernização do país. Os eleitores confirmaram a opção pelas reformas como apresentadas por Macron, dando legitimidade para sua execução.
Vamos trabalhar para que algo parecido possa ocorrer aqui em outubro de 2018.

Imprensa internacional repercute denúncia de Janot contra Temer

Matheus Maderal - O Estado de S.Paulo


Os britânicos 'BBC' e 'Financial Times' destacaram a notícia no topo

 do site; na Argentina, o 'La Nacion' também deu importância para

 a denúncia da PGR


A imprensa internacional está repercutindo a notícia de que o procurador-geral da república, Rodrigo Janot, denunciou criminalmente o presidente Michel Temer por corrupção passiva no caso da JBS, nesta segunda-feira.
O site internacional da BBC traz a notícia com destaque na página principal com o título "Temer, do Brasil, é acusado de corrupção". Já a home do jornal americano The Washington Post traz uma foto de Temer com o dedo em riste, ao lado da notícia de que é a primeira vez que um presidente brasileiro enfrenta acusações criminais enquanto exerce o cargo.
BBC - Michel Temer
No site da BBC, a causa da denúncia de corrupção:  o presidente teria autorizado o pagamento de dinheiro ilegal Foto: www.bbc.co.uk
Ainda na Europa, a notícia destaque do site internacional da Deutsche Welle, na Alemanha, que afirma que essa deve ser a primeira de uma série de acusações contra o "líder impopular".
O francês Le Monde também dá a noticia na home, e uma matéria sobre a denúncia vem acompanhada de uma foto do presidente com a mão sobre o rosto. O britânico Financial Times noticiou os acontecimentos políticos no Brasil com uma chamada na página principal.
Na Argentina, o site do La Nacion traz a notícia entre os destaques da home, com o título "Michel Temer é denunciado por corrupção e corre o risco de ser destituído pela Suprema Corte". Já o Clarín não dá destaque para o caso.
La Nacion - Michel Temer
"Temer foi denunciado por corrupção e corre o risco de ser destituído pelo STF", mancheta o jornal argentino La Nacion Foto: www.lanacion.com.ar

"Um prólogo à sentença de Lula", por Vera Magalhães

Folha de São Paulo


Na densa e consistente sentença em que condenou o ex-ministro Antonio Palocci Filho a 12 anos, 2 meses e 20 dias, o juiz Sérgio Moro construiu um prólogo para sentenciar, em breve, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O nome de Lula aparece 35 vezes na peça de Moro, na maioria delas em citações de depoentes ou delatores, mas em muitas na pena do próprio coordenador da Lava Jato, que escolheu algumas informações centrais para estabelecer a ligação indissociável entre o agora condenado Palocci e Lula.
Nessas vezes em que é o próprio Moro que se refere a Lula, que são sete, ele lembra: que o petista era o “Amigo” da planilha da Odebrecht, que este “Amigo” recebeu recursos da chamada conta geral da propina da empreiteira, que esta conta tinha Palocci como coordenador-geral, que foi o próprio Lula quem designou o “Italiano” para cuidar de distribuição de recursos na campanha, que foi também o ex-presidente que o nomeou como interlocutor com a Odebrecht. Logo, está pavimentado o caminho para incluir Lula neste enredo.
Esta construção diz respeito não ao processo de Lula que está mais próximo do final, o do triplex do Guarujá, que teria sido parte de propina disfarçada paga a Lula em troca do favorecimento da OAS em seu governo.
Ainda assim, não se duvida mais de que Moro vai fechando um enredo para sentenciar Lula, que emerge da sentença de Palocci como plenamente conhecedor da engrenagem do petrolão e da total promiscuidade que havia entre partido e governo na era petista.
Moro também não deixou de mandar de volta o recado que Palocci lhe deu, de forma nada sutil, quando se dispôs a colaborar com informações durante audiência. Dois meses depois disso e a delação do petista segue um vaivém que acompanha as pressões externas a Curitiba para evitar que ele fale – que vêm não só do PT como dos setores financeiro e produtivo.
Moro disse, sem rodeios, que hoje Palocci parece ter feito mais uma tentativa de barganha que demonstrado efetivamente disposição de colaborar. O puxão de orelhas foi entendido. Além disso, a revisão das penas de colaboradores como o casal João Santana e Mônica Moura e o herdeiro Marcelo Odebrecht deve terminar por convencer o antes bipolar Palocci.
Diante das cartas postas à mesa e da possibilidade de vir rapidamente uma condenação em segunda instância, os advogados devem ultimar os pontos do acordo nas próximas semanas.

Fernando Gabeira: "O futuro dos predadores"

O Globo


Sempre que ligo a tevê no noticiário político, o PSDB está deixando o governo ou decidindo ficar com ele. O partido não conhece aquela teoria da dissonância cognitiva. Ela afirma que, uma vez feita uma escolha, a tendência é reforçá-la com racionalizações. Se escolhemos rosas brancas no lugar das amarelas, tendemos a ressaltar a beleza das brancas e a enfatizar os defeitos das amarelas. O PSDB ou está saindo ou ficando. Se decide ficar, faz precisamente o contrário do que acontece na dissonância cognitiva: começa a refletir sobre as vantagens de sair. No momento em que toma a decisão do desembarque, certamente vai falar muito das vantagens de ficar no governo. Enfim, parece ter uma permanente incapacidade de tomar decisões e seguir com elas.
O drama do PSDB se acentuou com as denúncias contra Aécio Neves. Sua tendência quase genética a subir no muro torna-se mais compulsiva no momento em que tem de escolher entre a Lava Jato e o sistema político em colapso.
O interessante é observar como a existência das investigações mexe com a sorte dos partidos. O PT, por exemplo, torce para que Aécio Neves não seja preso, pois isso destruiria o argumento de que o partido é, seletivamente, perseguido. A prisão de Aécio pode tornar mais fácil a de Lula. Ambos olham com esperança para Temer, não porque o admirem e sim porque é o único com instrumentos potencialmente capazes de salvar todo mundo.
Escolha de Procurador Geral, mudanças na direção da PF — o sonho de consumo das estruturas partidárias cai nas mãos de Temer, por sua vez, preocupado com sua própria situação, sobretudo com o avanço das delações premiadas.
Janot deixa o cargo em setembro. Fala-se em corrida de delações. Ao mesmo tempo, fala-se num acordo para fixar a diferença entre receber dinheiro pelo caixa 2 sem oferecer nada em troca, ou receber em troca de favores oficiais. Quando setembro chegar, talvez termine o primeiro ato. O PSDB vai hesitar muitas vezes, os adversários políticos continuarão fingindo que não estão umbilicalmente ligados no barco que naufraga.
As raposas políticas trabalham para que Temer escolha um substituto amigo para Janot. É preciso ver como isto vai se passar na instituição, se ela se rende com sem luta, ou resiste ao lado da sociedade. Diz a imprensa que a candidata Raquel Dodge tem apoio de Sarney, Renan e Moreira Franco. Se a eleição dependesse do voto popular, esse apoio seria um abraço mortal.
Tudo é possível num país como o nosso. Surreal mas não o bastante para apagar de nossa consciência o gigantesco processo de corrupção que arruinou o país.
Terça-feira acordei em Curitiba e olhei pela janela do hotel: manhã fria, cinzenta e chuvosa. Pensei nos presos que estão por aqui. O inverno será duro para eles. E, certamente, alguns outros virão para cá.
Mas ainda assim, creio que uma fase esteja acabando. Ela não resolve nada sozinha. Mas abre a possibilidade do país enterrar o sistema politico partidário, buscar algo novo, ainda que questionável, como fizeram os franceses, por exemplo.
O esforço de Sarney, Renan, Moreira e outras raposas do PMDB para deter o curso das mudanças é patético.
Pessoalmente não acredito que uma procuradora de alto nível iria se prestar ao papel histórico de se tornar cúmplice da quadrilha que mantém o país oficial na lata do lixo.
Quando setembro chegar, com o ritmo intenso dos acontecimentos, o perigo de um retrocesso talvez já não esteja no ar. Qualquer substituto, minimamente decente, terá de concluir o trabalho já feito. Muitos fatos ainda devem ser desvendados. Algumas delações devem ajudar. Não creio que a de Eduardo Cunha possa ser uma delas. Cada vez que se fala em sua provável delação, é possível que ele enriqueça mais, vendendo o silêncio, inclusive para inocentes.
Mas a carta de Cunha revela uma reunião entre ele, Lula e Joesley que o dono da Friboi não mencionou sua delação premiada. Isso reforça a suspeita de que Joesley esteja escondendo jogo.
Semanas favoráveis, semanas negativas, semanas no muro, tempo vai se passando, as ruínas do velho sistema político partidário se acumulam. No entanto, o debate sobre a renovação ainda não ocupa o espaço merecido.
Com os dados que temos, é possível que as instituições que sobrevivem realizando seu trabalho e a sociedade que as apoia saiam vitoriosas dessa luta.
De nada adiantará essa vitória se não houver uma alternativa de mudança. Nem todos os bandidos serão presos e a força da inércia pode trazê-los de novo ao topo da cadeia alimentar. Eles comem, anualmente, cerca de dois por cento do PIB.
Por que mantê-los, sobretudo agora que estão se desintegrando? O preço do silêncio e da indiferença pode nos levar a perder uma nova chance de tirar o Brasil do buraco.

Pacote de R$ 55 bilhões influi em apoio de Doria e Alckmin a Temer

Adriana Ferraz - O Estado de S.Paulo




Para tucanos, sucesso de planos de desestatização da Prefeitura

 e do Estado depende da estabilidade econômica



Não é só a disputa presidencial de 2018 ou a importância dada às reformas que explica a posição do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e do prefeito da capital, João Doria, pela permanência do PSDB na base aliada do presidente Michel Temer. Em ambos os casos, um fator extra tem sido levado em consideração: tanto o Estado como a Prefeitura têm como foco de suas gestões programas de desestatização que dependem da estabilidade econômica e também política do País para atrair investidores. Juntos, governo e Prefeitura ofertam hoje uma cartela de negócios de cerca de R$ 55 bilhões.
Uma eventual segunda troca de presidente em pouco mais de um ano poderia afugentar investidores e reduzir as chances de fechar bons negócios a tempo de mostrar ao menos parte dos resultados antes da corrida eleitoral. Com a arrecadação em baixa, os tucanos têm colocado todas as suas fichas nas possibilidades de parcerias com a iniciativa privada para engordar o caixa.

ALCKMIN
Alckmin durante encontro sobre etanol em SP Foto: ALEXANDRE CARVALHO/A2IMG

Há um mês, Alckmin e Doria cumpriram uma agenda extensa em Nova York e Washington, com o intuito de apresentar seus projetos a empresários brasileiros e estrangeiros. Doria, especialmente, já fez três viagens internacionais desde janeiro com essa mesma pauta: tentar vender os 55 ativos listados por sua gestão no plano municipal de desestatização. Na relação, estão o Estádio do Pacaembu, o Autódromo de Interlagos e o Complexo do Anhembi, além de parques, mercados e cemitérios.
A relação de Alckmin é ainda mais ousada. Inclui, por exemplo, concessões de rodovias estaduais, linhas de trem e metrô, sistemas de abastecimento de água e ainda habitações de interesse social. Na análise do governador, que já alcançou bons resultados neste ano ao conceder estradas – o leilão da Rodovia dos Calçados, na região de Franca, por exemplo, obteve ágio recorde de 438% e rendeu R$ 1,2 bilhão em outorga –, a instabilidade política pode prejudicar seus planos.
“É claro que sempre atrapalha um pouco”, disse Alckmin. O que pode minimizar os efeitos da crise no governo Temer, segundo o governador, é que o investimento, neste caso, é de médio e longo prazo, já que os contratos de concessão são de 20 a 30 anos.
“Então, ele não está enxergando o Brasil deste ou do ano que vem. Esse é um ponto importante. O segundo ponto a se destacar é que São Paulo oferece segurança jurídica. Nossas concessões são da década de 1990 e temos agências reguladoras profissionalizadas. Isso nos ajuda”, afirmou Alckmin.
Cronograma. O governador disse também que vai manter o cronograma estabelecido para os leilões. No próximo dia 5, por exemplo, ele participa do leilão da Linhas 5-Lilás e 17-Ouro do Metrô na Bolsa de Valores de São Paulo. O lance inicial para os dois ramais é de R$ 189 milhões, mas com previsão de alta. Ao todo, o programa estadual está avaliado hoje em US$ 14,6 bilhões, ou cerca de R$ 48 bilhões.
Para aumentar a concorrência e atrair empresas estrangeiras, o governo estadual alterou as regras das concessões paulistas, retirando uma exigência técnica que limitava a participação a empreiteiras. Neste ano, até abril, Alckmin ainda fechou a concessão de 570 km de rodovias no centro-oeste do Estado e de cinco aeroportos de aviação executiva.
“Temos de transformar as necessidades do Brasil na área da infraestrutura em oportunidades. Com boas reformas, o País vai crescer, o emprego vai ser retomado, assim como o consumo e a renda. A razão de o PSDB ter permanecido é essa: as reformas. O nosso compromisso não é com o governo”, afirmou.
Doria segue o mesmo discurso. Para o prefeito, a continuidade das reformas e a manutenção da política econômica da gestão Temer, que, na sua análise, vem sendo bem realizada, dão o caminho de que é possível ainda a investidores nacionais e internacionais confiarem no manejo econômico do País e em uma razoável estabilidade política para permitir que alguns investimentos sejam realizados.
“Pior seria se tivéssemos instabilidade plena, o enfraquecimento do governo e sua paralisação quase que por completa diante de uma saída do PSDB. Felizmente, preservou-se o bom senso e o equilíbrio, mas dentro de um aval que não é incondicional”, afirmou Doria, sobre a decisão tomada pela executiva nacional da legenda no início deste mês.